Mostrando postagens com marcador humor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador humor. Mostrar todas as postagens

Mural do Veaco




Quando da época em que a rede Globo esteve realizando filmagens, integrando as comemorações do aniversário de vinte anos da emissora,  ouvi muitas histórias de como a pequena Paredão de Minas, distrito de Buritizeiro, virou de pernas pro ar. E de todos os casos, o que mais me chamou atenção foi porque o nome de Tony Ramos foi  incluído no SPC Rural.

Leia mais

Operação O.Pen


Primeiro por causa do calor, depois pela ausência dos amigos, o dia mudo estava um tédio. Coisa mais sem graça, aquele domingo. A turma, há anos tinha se dissipado, e a saudade, atrevida, toma forma no peito. Sentimento besta que não pede licença pra alojar no coração da gente. Por isto ela estava lá, cravada nas lembranças de Chico. Eu quis saber, que saudade era aquela, e a cabeça dele começou a vagar, trazendo prá boca este e aquele momento, que o tempo levou. Delas, solta a gargalhada, os dedos rabiscam sobre a mesa, desenha o trajeto que viveu.

Leia mais

A Cara do Mico



Logo cedinho, o bicho de cabeça pra baixo, bota toda cara grande na janela da cozinha e, com aqueles olhos esbugalhados, entretidos em bisbilhotar, dá de cara comigo. O susto deste imprevisto fez com que ele ficasse bestificado, estático e o queixo lhe atingesse o peito. E só saiu do transe após ouvir a gargalhada que soltei da cara dele. Saiu correndo, trombando nas vigas, no ar, em si mesmo. E se eu ri tanto, foi por me lembrar que o danado do Mico tinha a mesma cara do tal sujeito de ontem.




O tal sujeito de ontem é violeiro e cantador dos bons! Interpretava as músicas de Zé Ramalho e começava até bem, mas, lá pela centésima pinga, ficava fazendo somente o gesto com a boca, sem soltar um som sequer. Daí que, nos bastidores, ganhou o apelido de ZeCaralho. Apesar da pouca idade, Zeca tem os cabelos totalmente brancos. Magrelo, estatura mediana, sem os dentes da frente, vivia por aqui, de bar em bar, filando de cigarro à tira-gosto, de cachaça à parati, até que um da rua, compadecido, lhe retirasse da calçada. A família já tinha cansado de falar, de pedir, de mostrar; então bebe, praga ruim!


O Zeca, nas horas de lucidez, era um excelente pintor. Daí que fazendo um bico daqui outro dali, foi parar na casa de outro sujeito grisalho, vendedor de mudas, apreciador dos mistérios dos cristais e das estrelas, que falava com seres espaciais e mantinha a filha única na França. Segundo soube, foi num destes encontros intergalácticos que ele foi informado dos números certos da sena e ganhou sozinho, com uma única aposta, a maior bolada da época. Depois desta prova, quem sou eu pra questionar as naves espaciais!


Tornaram-se amigos e apoiado por ele, Zeca foi pra São Paulo se tratar. Hospedou-se em uma das casas que este mantinha pra a filha, em suas vindas ao Brasil. E lá fez bonito: trabalhou pra agradecer a ajuda. O tempo passou e eis que surge, o agora José, com dentes perfeitos, desfilando de carro importado pelas ruas da cidade e como turista, câmera na mão, filmando o rio, passando pra lá e pra cá de bermuda comprida, camisa estampada e meia três-quartos. À tira colo e sob às benção dele, a bonita filha do Cristaleiro.


Num domingo ensolarado, o Cristaleiro morre: infarto fulminante. Os dois, Zeca e namorada que estavam lá pelas bandas da Europa, levaram quase três dias pra chegar aqui. A esta altura do campeonato é Zeca, digo, José, quem administra os bens da família. E até onde se consta nos laudos do cartório, das portas de rua e dos botequins, o cara não cometera um só deslize, não se deixou levar seguer, por uma proposta indecorosa! Agora tem porte e anda de cara limpa e peito inchado. Uma chance de ouro! A moça é bem criada, carinhosa e orgulhosamente desfila de mãos dadas com ele pelas ruas da cidade em fofoca, numa demonstração clara que o ama e o respeita. Às vezes era isto que ele precisava. Alguém que confiasse nele. Que apostasse nele. Que saiba dar valor! E tão felizes estavam que o casamento foi singelo também. Nada de ostentação, nada de barulho. Tudo na calma e na paz.




Ontem era dia de fazer matéria e eu estou, há coisa de um mês, na função de cinegrafista junto com Anderson. Cubro o que, inesperadamente, não se adaptou e foi embora. Também precisamos de uma repórter. Por isto, ao fazer as cenas, observo com muita atenção as pessoas ao redor, pra ver se reconheço nelas, o que procuro. E foi num destes zoom que flagrei Zeca, detrás da porta do carro, dando mais uma golada na marvada. No olhar sorrateiro, o rosto gira para um lado e para o outro, vrupt, pinga pra dentro. Depois, limpa a boca com a manga da camisa, sopra o ar, ajeita a língua, faz massagem nos beiços, masca um cravo e volta pra roda cheia de amigos. A cara, seríssima! Acompanho, duas, três vezes o mesmo percurso dele, no carro.


Neste ínterim, minha adotiva Raimunda, com seus parafusos a menos, esta no meu encalço, porque um delegado de codinome Don-Juan-Júnior, inventou de dizer pra ela que estou grávida e são quatro crianças. Desde então, nossos encontros tem sido pedantes; ela e sua cabeça desmiolada não saem de perto de mim, chorando e seguidamente fazendo a mesma pergunta: você vai casar com ele? São quatro? Cinco? Hoje não me irrito mais. Deve ser porque tive um ataque descontrolado de cólera na vida, e este foi semana passada. Estou limpa de tudo. Será difícil alguém me tirar do sério, por um bom tempo. Ela desiste, se afasta resmungando e eu, que conheço a peça, somando dois mais dois, chamo Anderson e falo o que podemos esperar. Ele ri, maliciosamente, e nos posicionamos. E é agora é que você tem que se lembrar da cara do mico, lá no início da história.


Lá foi Raimunda, xingando e chorando. Não quer saber mais de mim, tou de mal, acredita na gravidez quádrupla. Quer me mostrar que tem outra amiga. Pernas tortas, mãos na cintura, foi direto e reto na roda de ZecaCaralho. Cutuca o ombro da moça recém casada: Cê tá esperando neném dele? e aponta pra cena bagaceira que finge mexer no carro.


A talagada nem tinha chegado na garganta, quando os olhos de toda roda o encontraram. O impacto, o ohhh, o silencio. Acho que nenhuma boca voltou pro lugar. A cara dele, a cara do mico. Tal qual o olhar. Tal qual o silêncio; a paralisia. Mas ele não corre, quando ela se aproxima. Abaixa os olhos, balbucia foi só uma. Mais tarde, neste mesmo dia, eu os vi; ele de violão em punho abrindo e fechando a boca sem som, talvez entoando uma musique de ZéMico, só pra ela.

Leia mais