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O último desencontro




A culpa de eu amanhecer dormente é da morte, de novo, que veio bater na minha porta.


Pra onde olho tem os amigos dela e estou sem espaço. Lá no meu quarto, a cama fria recebe em vez de mim, a angústia refestelada debaixo do cobertor. Na cozinha, pelo quintal, nos cantos mais miúdos, o silencio no vazio perene. Tem muitos assombros na minha casa e eu não sei mais chorar pra afastá-los. Agora, sou covardia em pessoa. Queria fechar em mim, estar somente pra mim, falar só pra mim. Mas não posso. Tenho que sair daqui e ir lá.

Ir presenciar a amargura da perda, dar de cara com o passado, refazer e desfazer histórias. Enterrar os segredos.

Sei que meu coração vai se partir em mil pedaços ao ver a dor do meu filho chorar sobre o corpo do pai. Um pai que meu menino sempre quis, que marcou muitos encontros e faltou a quase todos eles. Um pai imensamente esperado em muitos natais, muitos aniversários, em todas as suas conquistas. Um homem perdoado pelo que não foi e, mesmo assim, não soube viver isto.


No hospital pediu: “morre não, pai, fica aqui, vamos marcar um encontro de verdade e vê se desta vez você não me dá bolo”.

Mas ele se foi. Deu outro bolo. O último e o mais doloroso de todos.

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A Carta





No chamado de cada um, Alice e Santiago seguiram por outros caminhos. Cada qual tem seu chamado! Ele quer se fazer doutor e ela tem pressa em viver. Um tem que percorrer o caminho, o outro precisa parar para faze-lo. Então, relembrando lá, o princípio desta história, nesta carta, ela se despediu:

“Meu bem,

O rio que nasce lá em cima desce todo animado, é pequeno, só tem um filetezinho. E, pelo caminho, recebe pequenos rios e córregos que injetam bem na sua veia, mais vida, mais água e ele, junto e misturado, vai assim, tomando volume e se formando mais rio!

E o rio que é rio, que é gente feito a gente, cresce, passa por muitos lugares, diferentes essências e jeitos. Vive de tudo; ora com os peixes que vêm nadar pra fazer festa e procriar, ora com os pesqueiros que abastecem a família e o bolso. Jovem, astuto, arrogante, bate suas águas nas pedras pra fazer barulho nas corredeiras só pra mostrar virilidade. É resoluto, brilhante, inteiro, vistoso! E vai seguindo, seguindo, ora em linha reta, ora pelas curvas do caminho. Vai que vai, apaixonado!

Mas com o tempo, ele se torna mais brando. Começa levar aquele jeitão manso, talvez refletido pelos enigmas nas histórias que colecionou desde lá de cima. Feito gente crescida derrama lágrimas de amor e de dor, como as mães que festejam a alegria dos que acabaram de chegar e que choram pela saudade dos filhos que partiram. É nobre como o homem que se debruça na varanda do tempo pra contemplar e desaguar as pequenas grandes facetas da sua história, aquelas coisas que não se explicam, mas acontecem. Quando entorpecido de paixão, clama pelo amor que se foi... O rio é gente, gente como a gente. Encruados nas suas águas, tá cheio de histórias. São vidas. Muitas vidas!

Daí vai descendo, mais pra lá, e ainda brinca no sacolejo, às vezes até faz onda, mas descobre que já é tão grande, tão pesado e que não precisa e nem consegue mostrar tanta força. Nesta hora, alguém lhe conta que em breve vai virar mar.

E ele se pergunta: mas... mar; o que é o mar? Uma imensidão esverdeada e brilhante que vai dar nos quatros cantos do mundo? Como é ser imenso? Não fazer parte de nada e ser tudo? Então tem medo. Abre os braços, na tentativa desesperada de se segurar pelas beiradas, de se ater ao tempo, de voltar às corredeiras, de abraçar a lua e sugar o sol. Quer parar. Contudo, suas águas desfilam para o infinito. Matas ciliares já não existem mais. No fundo, se sente enfeiado dos lixos que recebeu. É na tentativa de se agarrar, inunda cidades, vales, vilas, lugarejos. Mas, pra onde correr? É inútil. Não tem como parar a coredeira. Não tem como freiar a vida e parar o tempo. Não tem como ficar rio.

Nesta hora, resignado, vai complacente. Fez o que fez, leva a vida que levou, carrega o que amou. Por isto, ao final, manso e silencioso, se entrega ao mar. Daí que, o que era pra acabar e se perder, se modifica: o Rio vira Mar.

O mar, meu bem, coleciona histórias e as guarda para si. Mas o rio fala, porque não quer passar em branco entre o céu e a terra. Então, neste fluxo, faço-me olhos do mundo nas histórias que impregnam o rio. Não pra obter respostas acerca dos mistérios, mas para viver rio e não trair a vida, pois se me nego, abandono os talentos que Deus entregou a mim e em mim, espera. E só assim não serei vencida."


Depois assinou, pura e simplesmente,


"Alice.”

E saiu.


Foi assim, desse jeitinho assim, que se separaram.

De longe, bem de longe, os olhos brilham e se despedem. Os cílios que um dia brincaram um com o outro, mudam de direção e seguram o que aperta a garganta. Outros rios virão, aqui ou noutra curva em que se fizer caminho até o fim da jornada. E este continua sendo o segredo só do mar.

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A Força do Vento

Esta é a continuação de "Chove no tapete verde do meu quintal..."



Foi no beijo, recheado de veneno, que a mulher nada virtual, o abateu de vez. Dias antes, tinha lhe jurado que o tratamento era besteira, que ele já estava bom para lhe passar os mundos e fundos a que se propôs desde o início. Depois, quando não conseguiu mais dinheiro, arrancou seu coração ao dizer-lhe que queria ser indenizada pelos “serviços prestados à sua velhice e doença". E, se ele voltou para casa com um restinho de vida, deve-se a anônimos que o socorreram, àquele momento de horror.

Fui ficar com ele no hospital.

Estava magro e abatido e suas mãos tremiam mais do que de costume. Não perdera o jeito de juntar todos os dedos pra tentar explicar seu ponto de vista. Mas, suas palavras, misturadas com tantas lembranças, não o deixavam que fosse completamente entendido. Suas palavras, frases.. eu não entendia! Seu peito abatido estava ferido de todas as formas. Sim, a linda história virtual rasgara suas cortinas e aquele homem enorme, lindo, tinha nos braços, pernas, mãos e pescoço tubos, agulhas e fios. E usava fraldas. Sim, meu pai agora era o meu bebezão.

Nos dias em que lá fiquei, assisti aos delírios de cada pedacinho da sua história, numa volta ensandecida ao passado de frases emboladas e repetidas. Tentei participar, me fazendo passar por caroneira, quando, como motorista de caminhão, ele começou a vida: “aperta o pé, meu bem, que eu daqui me seguro!” E puxava assunto na “boleia” : “Viu pai, o senhor venceu, construiu um tanto de coisas!” e ele sorria, fazendo que sim, com a cabeça. E dirigia.... Eu, mesmo que chorasse em todos esses momentos, ora brincando, ora elogiando seus feitos, ainda acreditava, sim eu acreditei, que ele ia sair daquela.

Numa tarde, ele disse que queria se assentar. “Xentá” foi o som que soltou. Chamei minha filha e cruzamos nossos braços nas costas dele. “No três, pai”, e vrupt. Meu bebezão enorme, diante do desejo realizado, olhou pra mim, pra minha filha e arregalando os olhos num grande sorriso comemorou: “eu xenteeei...”. Sua vitória, nossa última gargalhada... Mas eu ainda não acreditava. Porque ele era resoluto. Não, nunca aceitou sua condição. Arrancava os tubos e fios, toda hora queria se levantar: “Vão bora”, mas não aquentava e ficava prostrado com metade do corpo dependurado na cama. Um absurdo de sofrimento! 

“Fala devagar pai, estou aqui” gemia meu coração, quando ele, agarrado às minhas mãos, formulava frases indecifráveis na ânsia de se fazer entendido. Daí foi que eu, miúda e pequena, entregue a dor maior, dei pra pedir o fim daquilo e, no silêncio indecifrável daquele açoite estampei, enfim, o meu desespero: Deus acaba com isto!

Ela entrou no quarto e ajoelhou-se diante dele. Alisando-lhe os cabelos brancos, mansamente, agradeceu pelos filhos que conceberam e acrescentou que não havia restado mágoa e que a perdoasse também. Frisou pra ele, que a vida é passageira. “Tá tudo bem, fique bem, tá tudo bem”.  Assim, escutando minha mãe, ele se calou e se deixou levar.

No entanto, nem o tempo tinha selado estas dores, quando a agonia deu as caras e, de novo, levou minha mãe, poucos meses depois, doída pela saudade. Como um passarinho, de tão pequeninha que estava, rumou noutra estrada.

“Pra onde a senhora foi, mãe?” 

Lúcida, fez o sinal da cruz na testa de todos nós que ficamos. Bem lá, bem ao meu lado, simplesmente fez assim: o sinal da cruz em um por um dos oito, daí os olhos se fecharam e a maquininha rabiscou a linha reta, com aquele som horrível apitando o infinito... acabou.

Acabou. Acabou. Acabou...

Já, na casa que era deles, dentro e remexendo no guarda-roupa da minha mãe, encontrei dependuradas, ainda, as roupas do meu pai. O amor dela! Ali, delicadamente escondidas, preservadas, todas limpas e passadas. E ao retirá-las, todas pra doação, abraçada a tantas peças com o cheiro deles, milhões de lembranças com o jeito deles, me deixei sucumbir, tombada diante da imbecil realidade a qual eu nada podia mudar.

Daí, eu caí. Geral. Corpo inteiro, alma inteira, desabei. Estava prostrada, enfim, derrotada.

Da moça nada virtual só soube que tinha feito a vida. Já tinha carro, loja bem montada no centro da grande capital do Paraná, com direito a cartões e festas. Da corja que ela um dia disse se chamar família, todos se sentiram lucrados, avó, irmão e os tais baibes.

A realidade diz que são bandidos e nossa família foi sorteada pra ser sugada por eles. E pra preservar o que restou de nós, decidimos que quadrilha a gente esquece. Devíamos ter dado o grito antes, agora era renegar, encolher e se afastar. Acabou!

Por um tempo, perdi meu caminho. Mas a vida continua e lá fora dá o grito, cutuca, chama e implora. Tenho que retornar nos meus filhos que crescem e mesmo longe de mim, fazem tudo ir em frente.

A morte inexorável um dia irá abraçar-me, levando-me ao encontro daqueles que tanto amei. É nisto que meu conforto. Ou será uma ilusão para manter-me edificada? Não sei.

Hoje, fico horas olhando para o meu quintal pintado de verde, sem pensar nada. Concluir o que? Estes dias choveu e brotaram verdes pra todo lado. Tem dia que as árvores choram. Tem dias que não. Diante da força da ventania, elas se curvam. Redimem-se  da sua prepotente arrogância em querer roubar o sol só pra si. Na calmaria se espreguiçam...

Lindas bailarinas coreografadas pelo vento. Deve ser para cingir a imensidão do céu de esperança. É, deve ser mesmo.


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