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O Amor e a Vida



E o Tempo fecha suas comportas, parando o mundo, quando Santiago sai do escuro e dá de cara com Alice. O clarão, vindo da Lua, emoldura os corpos, frente à frente, no brilho e no cheiro da pele que respira por inteiro o estado ao vivo e em cores. Ela, com jeito agreste, enrosca pelo ombro encabulado e ele sorri "amarelo", na continuação dela. Silenciados de frases e complementos, absortos no pisca-e-abre do olhar curioso de se ver por inteiro, apenas sorriem. Enquanto se escaneiam, ao redor, emudecido e estagnado feito estátua, o Mundo Imperativo assiste ao espetáculo humano audacioso.

Foi Alice quem primeiro tocou levemente sua boca na dele, minutos depois. Seja bem-vindo à minha vida, meu bem!! - foi só o que disse a ele. Santiago sorriu com os olhos e retribuiu o roçado, num jeito satisfeito, ainda que meio de lado, com covinha na bochecha e tudo.

- Temos que ir – ela interrompeu – o céu ta escuro, vem chuva por aí.

Mas o destino, que tem pressa e por isto não deu trégua, embananou o caminho, aproveitando, quem sabe, do efeito enebriante que a emoção trazia. Pois, o que era para ser percorrido em linha reta, se abriu em círculos e viadutos, num sobe-e-desce de estradas cada vez mais confuso. Eles já tinham andado por horas, no "é aqui, é ali", até se darem por convencidos que estavam ao contrário da Cidade-Porto. E quando, madrugada alta, cansados, encontraram um lugar para parar e por as ideias e o rumo no prumo certo, foram recebidos por um sujeito sonolento, grudado na bíblia, para falar o que o destino queria:

- Vocês estão com sorte – arrematou. Só tenho um ultimo quarto e é de casal.

Aquilo não estava nos planos. O combinado era se descobrirem e se encontrarem no tempo de cada um...se este fosse o tempo certo. Mas o moço, que esticou a mão e entregou a chaves, se despediu sonolento, trancando o hotel lotado.

- Eu vou beber alguma coisa – disse Alice, assim que a porta se fechou.

Mas foi só quando entrou no quarto, depois do banho, que alguém, bem de longe, ligou o som e impregnou o ambiente. É a nossa música - concordaram, quase que instintivamente. Alice dançava, rodopiando, rindo e brincando. E foi numa dessas voltas que se virou, viu Santiago aos seus pés, sorrindo.

- Linda – ele disse. Você é linda!!

Então, ela parou e se ajoelhou junto e em frente a ele. E, como se quisesse se embriagar, sugou-lhe o cheiro do peito até o rosto. Frente à frente, ele a beijou pela primeira vez e desta vez, enlaçando-a pela cintura, nas mãos pelas costas, pelos cabelos, ele homem e ela sua mulher, encharcados um no pêlo do outro, em meio a cheiros, suores e a terra molhada da chuva que caia pela janela. De certo, dois seres lavados de suas dores, saudades, medos. Desnudados de complexos, conceitos e preconceitos, numa entrega lenta e saboreada, perfeita como todo Amor deve ser. Estava sacramentada a união dos que um dia estiveram separados, sabe-se lá por quê. Por isto, depois daquele, muitos dias amanheceram e anoiteceram, e com eles risos, emoções, descobertas, num amor doce e intenso, no cheiro do café coado, das panelas fervilhando, temperos na mesa posta.



Mas, tudo que tem princípio, tem meio e fim. E assim, o último dia, a despedida, também chegou. Isto porque ambos seguem horas, horários, contas que vencem, gente que espera, muita gente... Ambos sabem as marés de cada um.

Alice reconhece a exatidão do tempo. Santiago acha que as certezas têm que ser escritas como cartório, porque já andou a esmo demais. Na realidade, ninguém sabe nada de nada. A vida cobra, o tempo ri: buscar certezas a onde? Chega a ser inexato fugir da dor se esta faz parte do prazer. Mas é o que buscam!! E quem aqui, em sã consciência, dirá que estão errados? NInguém tem tempo a perder e todos se perdem no tempo. Mas voltemos. Eu só quero contar a história e não analisar o certo e errado de cada um.

Só tenho a dizer que Santiago voltou para seu canto e Alice para o dela. Como a vida é. Tum-tum-tum tem que se acomodar e esperar. Até que os pingos estejam nos is. O que acontecerá, só o tempo tem para demonstrar com certezas. São tantas buscas, todo mundo cansado de errar... Tem tudo pra acontecer, mas tem muito pra se jogar pra cima pra que tudo aconteça. Porque no mundo e na hora todos tem no compromisso o que cada um fez da vida.

Aqueles dias, em que foram apenas um, capazes de abraçar o destino e serem humanos, naturalmente humanos, agora clamam pela exatidão das cartas certas, a minimização de erros. E a roda da vida, implacável, ri desta besteira toda, dizendo que, no fim da vida, o que conta são as plenitudes vividas e não as coisas acumuladas.

Feliz, cumprida a missão por ter dito e feito o que queria, a Vida, irmã do Destino, retorna ao seu ritmo normal, com buzinas de carros e celulares que tocam sem parar, e deixa os amantes no tempo de cada um. Eles se vão, misturados ao zum-zum-zum das abelhas, dos cavalos desembestados, dos profetas, dos pássaros de fogo, as estrelas e do Tempo, do beijo soprado pelas palmas das mãos, dos sussurros e dos medos, do Rio e do Mar; agora atendendo aos chamados...

Até Deus volta a cuidar de outros incautos, pra quem sabe, tentar 70 vezes 7 mostrar o que ninguém tem coragem de ver. Foi Ele quem criou o mundo, mas este anda sozinho. É o jeito moderno de sobreviver. Ironia, não é? Muita ironia!!


- Tudo junto e misturado -

F I M
da primeira parte

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Os Três Tempos



A areia quente sob os pés, a mente fervilhando perguntas, coração batendo forte no peito. Não sabia dizer o que sentia. Se raiva, se amor, se rancor. Muita coisa dentro. Excesso de tudo. Mistura de só e junto. Verdadeiramente misturado, pensou. A noite passada em claro, o corpo abrasado ao lado do travesseiro vazio. Por isto saiu de casa quando o dia ainda abria os olhos. Precisava trocar passos com a realidade, não se precipitar no compasso e assim, deixar o novo tempo nascer.

Como num parto, a contração do pensamento embaralhado fez com que ficasse tonta de desgosto. Esmurrou o ar. Quis soltar no grito, mas as mãos carregadas do vazio prenderam a boca.

Mergulhou de ponta no rio.

Afundou de cabeça na água e lá, imersa, se embaralhou no turbilhão da sua correnteza. Quem de nós dois vai explicar isto? Nas veias, o sangue gelado, no peito palavras escritas nas conversas. De si, a mente que teimava e relia sem parar o que não era pra ser visto. Ecos pra todo lado. As palavras no bate-volta.

Caraca! Queria se livrar do incomodo, mas pra isto tem que entender ou aceitar. Devia mostrar pra ele. Mas, falar por falar é conversa jogada fora. Não quero ser convencida de nada. Tem evidências demais. Quer afogar o martelar na cabeça e por isto fica debaixo d’água até não ter mais ar. E quando emergiu, ele estava lá, sentado na areia.

- Se demorasse mais um segundo eu ia te puxar pelos cabelos – foi o que disse quando se sentaram na praia.

Quem diria que o mesmo homem que anos atrás formou família e disseram “sim” diante de uma igreja cheia de convidados, hoje, a protege de uma outra história. São amigos ligados por um presente em que não tem dúvidas; apenas começo, meio e fim de um casamento que não deu certo. Foram cada qual passar noutra estrada, mas resguardaram a base com que se fizeram pessoas. Sentados diante das corredeiras do rio, ele nada perguntou e ela nada disse, porém deixou que ele soubesse por quem era o seu descontentamento.

- Perder é, as vezes, ganhar, sabia? Deixa como está, segue seu caminho.

Não existe esta coisa de perder ou ganhar, isto não é um jogo , tentou explicar mostrando o avesso das coisas, a frase na contramão. Não queria desculpas pra ver o que tava na cara e por isto contou a história toda, tim-tim-por-tim-tim sem refletir uma visão pessoal de dona da verdade.

A história começou quando o causador do descontentamento chegou dizendo que estava ali pela metade. E como os gestos falam mais que as palavras, no correr dos dias, mostrou que nem o restante da outra metade se fazia presente. Criticou a cidade que antes era surreal e intrigante, reclamou e encheu de defeitos o que antes era perfeito. O material de trabalho entregue a ele mal foi desvendado. Ficou ali na caixeta a disposição do olhar preso em outro mundo. Um dia falou que tinha medo de não dar conta e ela não quis convencê-lo de que a capacidade esta na vontade. Ela quer mudar, ta de saída, mas ele se diz bagagem e não pessoa. E pelo que sabia, no que guardou pra ele, o que desvendou pra ele, o que entregou pra ele foi estilhaçado no ar, nas palavras gravadas na tela. Eu não me importo com que os outros digam, mas me importo com o que ele diz pra os outros, finalizou. E o que ela ouviu, leu e escutou foi o que fez com seu coração perdesse a cadência.

- Perdoa os enganos, festeja o novo tempo, disse o então amigo na despedida.

Ela, assim, aceita que em histórias de amor não há culpados, nem pecadores. Há o tempo certo de cada um. Agora guarda em uma caixinha as fotos, as histórias, os apontamentos. Retira, delicadamente do computador, as lembranças. Pensa no que foi bom e se abastece disto. Suga do ar as delícias que um dia viveram e manda pra ele, seu melhor beijo diante de uma estonteante lua redonda no céu. Depois, quase que em oração, balbucia palavras ao homem formidável que amou e deseja verdadeiramente que viva em paz. Sabe que não existirá remédios pra nostalgia que virá, e por não querer esperar sentada, aceita o convite engavetado para ir dançar.

- A noite é uma criança – brinca com o novo tempo que nasce. Depois se surpreende às gargalhadas ao descobrir que o homem que a conduz no dois pra lá, dois pra cá tem o mesmo nome e sobrenome do que acabou de partir. Vida atrevida! Agora faz piada com a minha cara!

E com os olhos cerrados diante do novo tempo, se deixa apertar pela cintura, com a certeza de ter transformado o que pareceu tempo perdido, no mais sublime de si, ao se ver por inteira, como a mulher que vive, viveu e viverá um grande amor.

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A Força do Vento

Esta é a continuação de "Chove no tapete verde do meu quintal..."



Foi no beijo, recheado de veneno, que a mulher nada virtual, o abateu de vez. Dias antes, tinha lhe jurado que o tratamento era besteira, que ele já estava bom para lhe passar os mundos e fundos a que se propôs desde o início. Depois, quando não conseguiu mais dinheiro, arrancou seu coração ao dizer-lhe que queria ser indenizada pelos “serviços prestados à sua velhice e doença". E, se ele voltou para casa com um restinho de vida, deve-se a anônimos que o socorreram, àquele momento de horror.

Fui ficar com ele no hospital.

Estava magro e abatido e suas mãos tremiam mais do que de costume. Não perdera o jeito de juntar todos os dedos pra tentar explicar seu ponto de vista. Mas, suas palavras, misturadas com tantas lembranças, não o deixavam que fosse completamente entendido. Suas palavras, frases.. eu não entendia! Seu peito abatido estava ferido de todas as formas. Sim, a linda história virtual rasgara suas cortinas e aquele homem enorme, lindo, tinha nos braços, pernas, mãos e pescoço tubos, agulhas e fios. E usava fraldas. Sim, meu pai agora era o meu bebezão.

Nos dias em que lá fiquei, assisti aos delírios de cada pedacinho da sua história, numa volta ensandecida ao passado de frases emboladas e repetidas. Tentei participar, me fazendo passar por caroneira, quando, como motorista de caminhão, ele começou a vida: “aperta o pé, meu bem, que eu daqui me seguro!” E puxava assunto na “boleia” : “Viu pai, o senhor venceu, construiu um tanto de coisas!” e ele sorria, fazendo que sim, com a cabeça. E dirigia.... Eu, mesmo que chorasse em todos esses momentos, ora brincando, ora elogiando seus feitos, ainda acreditava, sim eu acreditei, que ele ia sair daquela.

Numa tarde, ele disse que queria se assentar. “Xentá” foi o som que soltou. Chamei minha filha e cruzamos nossos braços nas costas dele. “No três, pai”, e vrupt. Meu bebezão enorme, diante do desejo realizado, olhou pra mim, pra minha filha e arregalando os olhos num grande sorriso comemorou: “eu xenteeei...”. Sua vitória, nossa última gargalhada... Mas eu ainda não acreditava. Porque ele era resoluto. Não, nunca aceitou sua condição. Arrancava os tubos e fios, toda hora queria se levantar: “Vão bora”, mas não aquentava e ficava prostrado com metade do corpo dependurado na cama. Um absurdo de sofrimento! 

“Fala devagar pai, estou aqui” gemia meu coração, quando ele, agarrado às minhas mãos, formulava frases indecifráveis na ânsia de se fazer entendido. Daí foi que eu, miúda e pequena, entregue a dor maior, dei pra pedir o fim daquilo e, no silêncio indecifrável daquele açoite estampei, enfim, o meu desespero: Deus acaba com isto!

Ela entrou no quarto e ajoelhou-se diante dele. Alisando-lhe os cabelos brancos, mansamente, agradeceu pelos filhos que conceberam e acrescentou que não havia restado mágoa e que a perdoasse também. Frisou pra ele, que a vida é passageira. “Tá tudo bem, fique bem, tá tudo bem”.  Assim, escutando minha mãe, ele se calou e se deixou levar.

No entanto, nem o tempo tinha selado estas dores, quando a agonia deu as caras e, de novo, levou minha mãe, poucos meses depois, doída pela saudade. Como um passarinho, de tão pequeninha que estava, rumou noutra estrada.

“Pra onde a senhora foi, mãe?” 

Lúcida, fez o sinal da cruz na testa de todos nós que ficamos. Bem lá, bem ao meu lado, simplesmente fez assim: o sinal da cruz em um por um dos oito, daí os olhos se fecharam e a maquininha rabiscou a linha reta, com aquele som horrível apitando o infinito... acabou.

Acabou. Acabou. Acabou...

Já, na casa que era deles, dentro e remexendo no guarda-roupa da minha mãe, encontrei dependuradas, ainda, as roupas do meu pai. O amor dela! Ali, delicadamente escondidas, preservadas, todas limpas e passadas. E ao retirá-las, todas pra doação, abraçada a tantas peças com o cheiro deles, milhões de lembranças com o jeito deles, me deixei sucumbir, tombada diante da imbecil realidade a qual eu nada podia mudar.

Daí, eu caí. Geral. Corpo inteiro, alma inteira, desabei. Estava prostrada, enfim, derrotada.

Da moça nada virtual só soube que tinha feito a vida. Já tinha carro, loja bem montada no centro da grande capital do Paraná, com direito a cartões e festas. Da corja que ela um dia disse se chamar família, todos se sentiram lucrados, avó, irmão e os tais baibes.

A realidade diz que são bandidos e nossa família foi sorteada pra ser sugada por eles. E pra preservar o que restou de nós, decidimos que quadrilha a gente esquece. Devíamos ter dado o grito antes, agora era renegar, encolher e se afastar. Acabou!

Por um tempo, perdi meu caminho. Mas a vida continua e lá fora dá o grito, cutuca, chama e implora. Tenho que retornar nos meus filhos que crescem e mesmo longe de mim, fazem tudo ir em frente.

A morte inexorável um dia irá abraçar-me, levando-me ao encontro daqueles que tanto amei. É nisto que meu conforto. Ou será uma ilusão para manter-me edificada? Não sei.

Hoje, fico horas olhando para o meu quintal pintado de verde, sem pensar nada. Concluir o que? Estes dias choveu e brotaram verdes pra todo lado. Tem dia que as árvores choram. Tem dias que não. Diante da força da ventania, elas se curvam. Redimem-se  da sua prepotente arrogância em querer roubar o sol só pra si. Na calmaria se espreguiçam...

Lindas bailarinas coreografadas pelo vento. Deve ser para cingir a imensidão do céu de esperança. É, deve ser mesmo.


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São assim Os Anjos



Ela estava um caquinho de dar dó. Das últimas semanas, bagagens lhe pesavam os ombros: do dinheiro difícil às presentes grosserias do filho mais velho contrapostas à saudade da doçura da caçula distante. Ainda por cima tinha a febre queimando-a de dentro pra fora. Não é doença, é cansaço de mulher sozinha, pensava. Os cabelos embranqueceram de uma hora pra outra e seu olhar envelhecido e sem brilho tirava-lhe o restante das forças. Tamanha solidão a fez chorar em frente ao espelho.

“-Por quê a gente envelhece?” – lamentou-se.

Mas não se deixaria abater. Primeiro, ainda tinha uma ponta de esperança das coisas melhorarem, depois porque a vida continuava nos filhos crescendo. Por ai, resolveu arrumar a casa pra espantar os maus espíritos, pra se fazer mexer, girar energia, mudar o que estava estagnando, sei lá mais o quê. De certo é que tinha de tirar a urucubaca do corpo.

Se a vida te dá um limão, faz uma limonada, lembrou. E esta manhã merecia uma caipirinha! Ia se dar esta força!


Assim começou a arrumação e caipirinha: espana, varre, joga água, troca móveis de lugar, som nas caixas. Terminou a dose. Encontrou companhia. Lágrimas ajudaram-na lavar o chão. Nas letras das músicas vislumbrou formas de expurgar as dores que ruminavam seu peito.

Depois buscou cerveja. Duas garrafas esvaziadas com calma e vassoura virou microfone e o rodo seu par na contra dança. Almofadas formaram uma platéia ativa. Janelas abertas e o vento a aplaudiu, lambendo seu rosto de carinho. No final da manhã quando a casa já estava um brinco, pôde sentir o contraste da assombração que ela queria limpar. Daí quê, pra descansar a alma, foi à padaria comprar mais cerveja.

E foi! Desfilou de chinelo, bermuda, suor e rabo de cavalo, até a esquina. Azar de quem achasse de mais ou de menos. Problema dos bobos da oficina da frente e suas piadas indecentes.

De posse das garrafas, já ensaiava a volta quando viu o filho abrutalhado entrar na casa recém arrumada.
E mais essa agora, pensou sentida, não ia mais poder ligar o som. Diante disto resolver tomar ali mesmo, quantas cervejas fossem pra lhe trazer o sono... E é ai que começa a história que vou contar.

Foi na metade da primeira cerveja que deu de cara com ele. O susto fez com que suas mãos se tocassem de um jeito diferente, as lembranças de um tempo feliz permitissem um abraço sem pudor, sem a preocupação com gente ao lado. E quando se sentaram à mesinha da padaria ficaram por um bom tempo calados. Estavam emocionados na presença um do outro. Então, só se olharam, só se tocaram. Falar o quê?

Ele mais grisalho, engordado um pouco, mantinha o mesmo sorriso escondido na cara fechada. Ela lembrou que ele era um homem bom, cheio de gestos ternos e cautelosos e que se não estavam juntos foi por imposição dela. Quem mandou um ser preto o outro branco, um magro outro gordo, um do mato outro da cidade, um graduado e o outro nem terminado a quarta série? Como leva-lo para um mundo de etiquetas, doutores, regras e tecnologias? Como levar ela para um mundo sem computador, sem os filhos que agora começavam a pegar rumo na vida?

Lembrou-se que a ciência destes fatos eram dos dois. Duas pessoas em mundos tão opostos que um dia viveram momentos intensos, felizes, mas insuficientes para prosseguirem. Na época que se conheceram resolveram seguir assim mesmo. Que fossem até a onde dessem conta. Até que as diferenças pesassem.

Ele, que se dizia forte, chorou no dia que ela pediu pra acabar. Estava preparado para largar tudo e levar ela pro mato mais ele. Azar das querelas. Mas ela não tinha conseguido desabrigar-se das diferenças. Assim, ele foi embora cabisbaixo, jurando nunca mais pisar os pés ali.

- Perdoa eu, nunca te quis mal - conseguiu falar.
- Não tem o quê... você é um homem bom, mas não vê que este mundo não é nosso?

Ela se sentiu acalentada com a presença dele e esqueceu o que vinha vivendo. Pra ajudar, a chuva de verão desceu, resguardando aquele momento e eles se amoitaram em um barzinho de quinta, rindo e jogando sinuca. Nesta hora, nesta tarde, o rompimento estava esquecido. Mais forte que isto tinha a saudade pra ser abatida.

- O que deu em você pra aparecer assim, de repente? - ela perguntou.
- Vim te trazer o dinheiro.
- Quê dinheiro?
- Lembra que você pagou a conta do restaurante, naquela tarde?
- Mas seu dinheiro tinha acabado!
- Eu não podia ficar te devendo.- acrescentou ele esticando a mão com o dinheiro entre os dedos.

O fim de semana ficou comprido. Ninguém soube, ninguém viu. Sábado à noite foram dançar. Domingo ela deixou o filho, ainda emburrado, em casa e foi pra beira do rio mais ele.

Acolhida nos seus braços ela achava que podia respirar aliviada das suas dores. Mas com a chegada da noite a febre voltou.
- Não posso deixar ocê voltar pra casa assim - insistiu ele
- Meu filho está lá, não ficarei sozinha.
- Mas ele não vai cuidar d´ocê, eu vou.

E arrumou um quarto em uma pensão qualquer. Lá se enrolou em um cobertor com ela, zelando sua respiração, respondendo ao delírio dela:
- Você fez nossa casinha branca, meu bem?
- Bem no pé da serra - sussurou pra ela.

Já era noite alta quando ela voltou a si. Ficaram conversando amenidades até o dia amanhecer pra só depois se separarem. Ela retornou pra o seu mundo e ele pro dele. Descobriram que outra forma de fazer amor era sendo o amor. Estavam em paz. Como os anjos.

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TRAVESSIA



Pra ir trabalhar, atravesso a ponte Marechal Hermes que liga Buritizeiro a Pirapora, todos os dias. E hoje ela estava congestionada. O rio, lindo, impávido colosso, brilhava sob muitos pés. No céu, tem o sol dourando a pele da gente. E a pele não arde, porque tem o vento lambendo a manhã e os corpos. E os “bom dia”, os “oooi”, os deliciosos “eeei menina!” é a parte musical.

Quando comecei a travessia, pensei em Chico que ontem me disse estar triste, em Tião abrindo sua caixa postal e dando de cara com um monte de gente e Isabela, lá em Paris sentindo-se meia Baronesa de Münchausen. Será que topariam atravessar para o outro lado de bicicleta, como eu?

É porque passar na ponte de bicicleta não é coisa pra qualquer um. Pra poder seguir em frente, tem que ter força nos braços, nas pernas e já se integrar às tábuas balançando e ao rio descendo. Senão não dá conta. A pé também é difícil. Veja só, o turista. Diga-se de passagem, que é só bater o olho, pra saber quando é “gente de fora”. Primeiro, porque ele se veste de férias com a máquina fotográfica no pescoço. Segundo, ele entra na ponte achando que vai atravessar os 694 metros de tábua meia solta, meia presa, como quem anda na rua. E não vai. Metade do caminho, lá está um sujeito, mais desbotado do que é, vestindo tênis e meia três - quarto, agarrado ao beiral de ferro, sem saber se vai ou se fica. Ele está tonto. O que antes era aventura, naquela altura do campeonato, vira superação.

Ah, mas esta palavra é lá pros lados de lá, pelas bandas de Tião! Vejo-o diante da sua caixa de mensagens, costurando a colcha da rede mundial, com histórias de gente de todo jeito. Deve ter gente ferida, gente alegre, gente que quer ferir só porque não é alegre. E depois disto tudo, ver-se a si próprio. Dia após dia. É a tal superação.

Mas quem tinha de ir além de si mesmo, era Chico. Devia estar aqui pra ver Fiote cantar “Bom Dia geeennnte!” pra todo mundo na ponte. Ele ia esquecer seus problemas, ao ver aquele menino grande, quase da sua idade, mas que a deficiência não deixou crescer, fazendo a travessia, de lado, pernada a pernada, saltitando atrás da mãe. Com os olhos tão azuis quanto o céu, Fiote segue uma senhora de longos cabelos presos em rabo de cavalo. Ela vai séria, reta, nem olha pras tábuas, nem pra trás, nem pro rio, nem vê o povo, enquanto ele, distribui “cocão” na cabeça dos pescadores e repetindo, na voz embolada, o sorriso do “Bom Dia geeennnte!”.

O pescador que apela e jura que um dia vai revidar o toc-toc na muleira, busca o Dourado. E lá está Isabela na terra de ceux aimants, assustada pelo poder que os bichos lá ganharam. Bicho que o povo agora se enamora, porque nem no anzol, ninguém pega mais ninguém. Mas eu queria que ela estivesse aqui para poder ver, o que eu vi, nos olhos de um homem bacana, no domingo, diante do bailar verde do meu quintal, a frase que as estatísticas de Paris deixaram de fora. Com a voz firme, o pedido de olha no meu olho, seguros na minha mão, perguntou-me se eu gostaria de ser a sua namorada. Se eterna, só o tempo. De perene, o homem que acredita que o amor ainda tem sua razão de existir mesmo depois que a gente cresce.

Penso de novo que Paris é bonito, que Tião tá costurando muito, que Chico devia viajar e que Isabela podia acreditar no amor. O celular apita a mensagem, é dele: “Tenha um bom dia, meu bem!”

Queria que estivessem aqui, sobre a Ponte São Marechal Hermes
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