Colcha de Retalhos
Na minha avaliação, perder o sono no meio da noite tem se tornado tão habitual que nem me ocupo mais em dissolve-lo. Fico assistindo filmes, documentários, enquanto aguardo, pacientemente, que minha mente se acostume a mudança que estou vivendo e assim, aceite o processo. Daí que, quando a mensagem chegou pelo celular às 3 da manhã, eu a li de imediato:
Nos braços de Santiago
Na ponta dos dedos

João saiu batendo o portão, depois que Alice mostrou pra ele a sua versão da história.
“Deplorável, o ser humano” foi como se expressou. “Sou um homem de conduta ilibada, não sou menino como escreveu. Diz pra eles que você é sem educação e quando entra não cumprimenta ninguém. Diz também que é insegura.” E antes de lhe dar as costas, soltou a hermenêutica sobre os dois lados da questão; ação e reação. Saiu assim, pisando duro, falando de coração magoado e com o peito cheio das raivas trincando-lhe os dentes. Escreveu “bye” e se foi.
Alice ficou atônita, estagnada diante daquelas interpretações na tela. Por quê tanta grosseria? Tomou litros de água rodando de um lado pro outro na tentativa frustrada de ver a situação com os olhos dele. Achou melhor ir lá e apagar “belo” porque perdera o encanto e “menino” porque ele só queria ser o homem sério. E ia desligar o PC, quando o MSN piscando, chamou-a de volta:
- Arruma as suas coisas, você vai fazer matéria no Rio – disse o coordenador.
- Quem?
- Não é quem, é o que. O cara vai fazer um documentário. Fechei as entrevistas com ele. Você é boa nisto. Fica esperta, a tensão elétrica lá é 220 Volts
- Você quer que eu vá pra Rio de Janeiro?
- Isto! Mando o carro te pegar daqui umas 3 horas, pode ser?
- Desculpa chefe, mas eu não vou não. Não sou de cidade grande.
E no você vai, eu não vou, a conversa que rendeu metros de tela, fechou pro norte, porque na tarde seguinte Alice estava dentro de um minúsculo avião à caminho de Cabrobó, cidade do sertão do estado do Pernambuco e sem nem imaginar o que aprenderia em apenas dois dias.
Lá, onde sol nasce parecendo querer partir a terra ao meio, Alice revisou o roteiro que consistia no depoimento de antigo morador: de como vivia do rio, traços da sua vida, a transposição do São Francisco, enfim, a rotina. Então, de câmera, protetor solar e baton, subiu na rural e foi atrás do tal sujeito. A poeira, numa combinação arrasadora de suor e creme, fez com que os primeiros minutos de estrada trouxessem o arrependimento concreto por não ter aceitado girar pelas ruas e mares do Rio de Janeiro. Estava martelando isto na cabeça, quando aqueles dois meninos, surgindo depois da curva, fizeram sinal pro carro parar.
- Dona, leva a gente ai – pediu o menino ofegante – só até na próxima porteira.
Dois garotos, de no máximo uns 10 anos, estavam andando a cavalo. Alguma coisa tinha assustado o animal que, no pinote, mandou os dois pro chão. Com o tombo, o que estava na garupa, torceu o pé e o companheiro já vinha carregando-o nas costas sabe-se lá, há quanto tempo! Detalhe, o que carregava o machucado era cego.
- Pra que médico? Gasta isto não. Só torceu - disse a mulher na casinha da roça. – amanhã ta bom de novo. Vou fazer um chá pra ele beber. Poe umas erva ai em cima desse pé e fica certo. Assim, não vai ter dor.
Na casa que entregou o machucado, a turma da reportagem foi pra beira da cisterna tirar poeira da cara, enquanto Alice e o menino cego estavam cheios de afinidades pra trocar. Já nasci assim, disse ele enquanto queria saber detalhes da cidade dela, do mundo que vivia, das coisas que gostava e conhecia.
- E por que chamam você de Delegado? – Alice interrompeu
- Porque eu tomo conta de tudo. Não deixo nada de ruim acontecer. – E fazendo continência afirmou - Tou sempre alerta e quando a coisa é triste, faço assim – estalou os dedos – e some! - terminou largando a frase em um riso gostoso.
- E você não fica triste nunca, mágico Delegado?
- Só quando dizem coisas que eu não sou.
- E o que você não é?
E ele respondeu sério, como ser fosse a coisa mais comum do mundo: “Eu não sou cego. Eu enxergo diferente.”
A conversa estava solta, o pessoal já tinha entrado no carro e Alice deu tiau pro pequeno:
- Você gostou de mim? - ele sorriu ao perguntar
- Claro! Agora você é meu amigo
- E quem é você?
- Como assim, eu já te falei um monte de coisas a meu respeito. O que você quer saber mais?
- Quero ver você – disse esticando a mãozinha.
Alice se ajoelhou e colocou a mão dele no rosto dela. Os dedinhos do menino mapearam-lhe os cabelos, os olhos, a ponta do nariz, a boca. Depois com as duas mãos, torneou-lhe a face. Fez isto com a ponta dos dedos, contornando cada pedacinho do rosto dela, como se esculpisse a parte que tocava. Ela devolveu o gesto, só que, talvez pra ver igual ao menino, fechou os olhos. Daí foi que sentiu a alegria dele. E pode experimentar na singeleza deste toque, toda a beleza daquela criança, na vida tilintando, o mágico, que tira a dor, que some o triste. Ela estava diante de alguém que mesmo não tendo nada, era puro e feliz. E ainda que vivesse no mais obscuro isolamento, detinha poderes só pra ver. Chegou a sentir aquele silencio que eleva a alma da gente. E quando abriu os olhos, ele sorria.
- Você é mais bonita do que eu pensava – disse ele
- Acho que gripei – respondeu escondendo a emoção
- Por que você tem que ir embora, se eu gostei de você? E eu sei que você gostou de mim. Tou vendo no seu coração.
Alice beijou a palma da mãozinha do menino.
- Ah, Delegado, porque moro lá. Tudo meu está lá. E vou guardar você aqui, ta bom?
- Então me dá uma foto sua pra eu ti ver toda hora que sentir saudades?
A foto que deixou com o pequeno Delegado trazia estampada, ela e os filhos, que Alice explicou pra ele tim-tim por tim-tim, com todos os detalhes. Levou dele, a pureza dos que vêem com a alma, dos que ainda sonham e querem sentir quem é você. Na ponta dos dedos.
Em casa, depois de copilar a matéria do trabalho, foi rever os amigos. Dieguito39, Joice, Rosana, Sissym, Romorena, Lilika, Tulipadourada, Rebonelli, LuLei, Lua Nova, Vividiniz, Ebrael, Maria Souza, Rita Costa, Principell Encantado, Lison, Helena, Victor, Márcia Canedo, Joicinha, Luiza, o blog da comentarista, Denize, Leila,Lucas, Claudia, Tatiana, Lilian, Nakamura, Sidney, Marli, Amooorrrr... tanta gente, seres assim que a gente vê na ponta dos dedos e se apaixona. Pura e simplesmente.
João? Ah, ele se foi. Diferente do Delegado lá de Cabrobó, João que é do Rio de Janeiro, tem uma vida cheia de pedras e assaltantes; não vê as coisas na ponta dos dedos. Lá não existe isto. Tem de ficar alerta o tempo todo. É porque tem o medo no bolso. A vida faz isto com quem vive em muralhas de pedra e asfalto. Por isto, preferiu cortar, pela raiz, o que achou duvidoso e saiu, por ai, soltando tiros pela boca. Mas ela ainda pode vê-lo, uma última vez, dissolvendo-se no meio dos megas e bytes da net, no estalar dos dedos, naquela curva, bem na tecla “delete”. É um bom homem, pensou. Ainda será um grande menino!
Acorda Alice!

foto: Alice e o espelho
Alice vivia de casa pro trabalho, do trabalho pra casa. Já fazia tempos que abnegara de uma série de regalias, porque sua alma estava triste. Vivia assim, criando pretextos pra abrir os olhos pela manhã e reencontrar uma estrada. Foi quando bateram no portão.
- Seu nome é Alice? – perguntou diretamente
- E você, quem é?
- Meu nome é João. Quero ser seu amigo.
O fato de ele ter batido à sua porta não foi exatamente a questão que mexeu com ela. Nem por ter sido o primeiro a fazer isto. Foi o jeito dele de ser. João a presenteou nas coisas em que mais admirava em uma pessoa: o português correto, o raciocínio coeso, a direção segura no que fazia. Conseguiram se inteirar um do outro. E em pouco tempo as conversas se tornariam mais intensas e os encontros, com horário marcado. A expressão dos sentimentos também. Conseguiam dizer “hummmm” e ali ser tudo.
Era caso pra se sentir. "Existe uma emoção no ar", diziam entre si. Os dias vieram realmente nascer para Alice e com eles, todas as cores do arco íris. Posso até dizer: foi amor a primeira palavra.
E o que a perspectiva de um afeto não faz nas cabeças das pessoas? Que derrame o primeiro suspiro àquele que nunca viveu este dia. A cabeça fica revirada, os problemas tornam-se pequenos e o que era sóbrio, passa a inexistir. Alice prendia o ar, para que os pés lhe assentassem no chão, mas o coração, feito carruagem, estava desembestado. Agora era se permitir ir mais adiante.
Ela achava que a inteligência de João era por demais aguçada. O homem era perspicaz, sabia o que queria. Muitas vezes acreditava ouvir o pensamento dele, querendo passar palavras, ir direto ao ponto. Noutras, o assunto desviava, mas ele se controlava, sem perder a direção, levando Alice pelas mãos, delicadamente, ao “x” da questão.
Marcaram de se encontrar, naquela noite, às sete. Ele chegou primeiro e escreveu sua aflição: “você está 27 minutos atrasada”, e continuou: “será que espero?”, Depois começou a contar: “43 minutos de atraso”, “44 minutos de atraso”, “45 minutos de atraso”, “estou ficando com saudades”, e foi o reclamar no minuto 64, que ela entrou. “obaaa... um min”, respondeu ele, e na cabeça de Alice, João fora fechar a porta.
- E esta noite? Você sonhou comigo? – perguntou
- Não - respondeu - você já é o meu sonho. Não preciso dormir pra ter você dentro de mim.
Dali pra frente a noite foi intensa. A conversa tomou forma arrebatada, os dedos, no teclado, cochicharam volúpias e sentimentalismos. E foi querer se desvendar que Alice enveredou por um chão antes apagado e as lembranças brotaram feito sal na sua carne. Tudo porque contou pra ele um segredo que nunca confessaria. Dai, perdeu o fio da meada. O tempo fechou e as chuvas desceram com força, balançando as janelas, arregalando o céu em prata. Ele pediu, ela ligou:
- João - disse tentando esconder o choro - a chuva esta forte e tenho medo.
- É você Alice? - atendeu ele - sua voz... você está melhor?
- te liguei mais para que escute o barulho dos trovões - foi só o que disse.
Aquela foi a primeira e única vez que os amantes virtuais se falaram. Depois disto, o tempo fechou bravamente. Do céu vieram os raios, trovões, ventania, o apagão escureceu o Brasil e a tela do computador. Sozinha, em sua cama, Alice se entregou a João porque já não tinha medo.
Não posso dizer que Alice achou aquilo normal. De manhã, bem cedinho foi perguntar no Google que sensação era aquela. Se natural. "Sim, é natural. Hoje em dia, o mundo virtual funciona como o real", foi a resposta quem a encontrou.
O tempo se encarregou de modificá-los. Alice pensou nas fotos. Chegou imaginar a cena do dia em que estivessem cara a cara e não se agradassem de si. Foi refletir no espelho as formas reveladas no jpg de 900x600 pixels e atestou; sim era ela mesma. Não havia mentiras nem photoshop. Mas alguma coisa aconteceu, de certo, para que João se portasse de outro jeito.
João diz:
*que jeito?
Alice diz:
*seco
*direto
*curto
João diz:
*o msn exige objetividade
*não estou seco.
Depois deste dia, o trabalho e as obrigações da vida real a afastou da tela. Foi encontrar João, um dia depois, completamente modificado. Ele a acusou de modos que ela não sabia responder: “sua mania de”, “suas atitudes”, “lá vem vc...”. a intitular-lhe de estilos e coisas jamais faladas. "Como pode julgar, insultar, se nem vê os meus olhos?" foi o que disse pra si mesma.
Agora, ela acha que ele a deletou. Ele acha que ela fica escondida dele. Assim, se perderam no céu virtual até que a realidade, se quiser, os encontre. Mesmo porque, no virtual, os arquivos se sobrepõem rapidamente e fica difícil refazer tudo de novo. Melhor seguirem. A vida esta indo por ai mesmo. Até já disseram que, em um futuro bem próximo, será assim: sonhos, desejos e perdas em um só clique, na velocidade dos megabytes.
Enquanto o mundo virtual gira deixando toda terra meio que bêbada, o sol abre mais um dia e enche as veias do real: acorda Alice, este sangue é seu!







