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O fim do Mundo


Lembro-me bem daqueles dias em que Buritizeiro ainda era novidade pra alguém como eu, recém chegada da cidade grande. Era também tempo de virada de século, bem na estréia do ano dois mil.

Naquele início de noite eu passeava pelas ruas, buscando seus moradores e aprendendo, encantada, às novidades que me eram proporcionadas pelos costumes da recém apresentada cidade. Minha mente fervilhava conhecendo pessoas de jeito desconfiado, olhar de soslaio, gente que vigia, enquanto conversa e, quando fala, a fala é mansa, cantada e sem pressa. As histórias já mexiam com minha imaginação, quando na porta de Neguim, a apresentação foi bruscamente interrompida pelos gritos:

- Jesus voltou! Jesus voltou! – berrou a voz na rua. E pelo tamanho do pulo no banco, ficou claro a seriedade do caso, com o susto da minha anfitriã - Gente, quequiéisso?

- Vem ! É o fim do mundo que chegô! – repetiu a voz ao apontar com o queixo, o decreto estampado bem na cara de toda gente.

Era um círculo. Uma bola gigantesca formatada com um furo bem no meio, brilhando feito prata lustrada. E pra completar a aparição, crescia e diminuía em forma ritmada, abrindo e fechando uma clareira na abóbada celeste! Um ohh, com a mão travando o grito na boca tomou conta de toda a gente. Dali em diante, fez-se o caos na cidade.

Homens acolhendo suas mulheres, crianças agasalhadas aos braços dos pais, gente de todas as idades cortando as ruas, num vai e vem frenético, deixando, no rastro, gritos de pavor! Era de arrepiar! E que ninguém duvide, porque era só virar osoi pra riba e confirmar: lá estava os sinais do fim do mundo, na cara do céu!

Na época, a televisão vinha alardeando, estampado em suas manchetes, com avais de Nostradamus e até de Mãe Diná, o prenúncio de que aquele ano seria sim, o adeus geral. “Mil verás, dois mil não passarás”, relembrava outra voz ao se benzer.

- Oh minha filha, Jesus precisa me perdoar. Pelo amor de Deus, leve eu pra casa. Preciso ver meus fio! Tenho quê pedi perdão - chorava a senhora,bem branquinha, que veio agarrar-se a mim.

Acomodada a mulher no carro, volante firme na mão pra contornar o povo boquiaberto no meio da rua, cara-a-cara com a aberração, lá fui eu, satisfazer o último desejo da dona. Não sei se o que me deixou estremecida foi o desespero do povo, se os gritos da mulher ou mesmo o branco engolindo o céu. O certo é que me fiz parte da multidão ensandecida.

Mãos tremendo ofertaram-lhe água com açúcar, assim que desceu do carro. O filho, aturdido, preferiu sentar-se silencioso à porta da casa e deixar perder o olhão triste no fim anunciado no céu. Ficou ali estagnado, suas pernas lhe avisaram, não adianta correr, a morte alcança de qualquer jeito. Ia dar uma de besta nada!... A menina, coitada, que na realidade era uma mulher de peitos fartos e mãe de cinco rebentos, fungava o nariz na palma da mão, assim, meio que embebedada, olhos pregados na velha mãe, querendo decorar em meio a tantas lágrimas, as rugas da sua progenitora. E foi bem assim que a velha, agarrada aos filhos e netos, descascou seu segredo. E eu, diante da cena dos abraçados, falando baixo feito reza, deixei a família trocando suas confissões. Voltei pra rua.

No carro sintonizei o rádio pra escutar qualquer tipo de elucidação para o caos que se formara na cidade. E como o ritmo Dance corria solto, sem interrupção do locutor, julguei, inicialmente, ter sido aquela escolha na despedida musical. Fugiram, deixaram qualquer coisa tocando, pensei. Cheguei visualizar a rádio abandonada, e sim, achei de mal gosto morrer assim, americanizada.

Enquanto ruminava sobre o estilo musical, fixei o olhar no céu. Na soma do dois mais dois observei que a bola acompanhava o ritmo vindo do som da música no rádio. Ainda buscando ligar uma coisa com a outra segui pra beira do rio São Francisco e a resposta, como um quebra cabeça, veio clarear o tamanho do Deus-nos-acuda.

Do outro lado do rio, cerca de 700 metros à minha frente, em festa, estava Pirapora. Do alto, do lado de Buritizeiro, onde eu estava, pude ver uma barraca toda branca, enorme, imponente e majestosa, armada bem na praia do Velho Chico. 


A boate itinerante, pra gritar sua estadia e atrair sua gente, riscava o céu com um canhão a laser. Era este o fim do mundo que dançava no céu.

Mais tarde vim a saber, que gente de todo jeito e tamanho, tanto de Pirapora quanto Buritizeiro, afiançou aquela coroação celeste como o fim dos tempos. E eu aqui, ré confessa, dou minha mão a palmatória: deixei-me levar pela aparição. Também, qualquer um ficava assim, se tivesse embreada, como eu, no meio da confusão e gritaria. E também, como todo mundo, não achei nenhuma graça quando a ficha caiu.

Hoje, mico bem pago, fico a rir de mim e de todos os pecadores que não consentiram que raciocínio imperasse. Porém, tanto aqui, quanto em Pirapora, quem não acha graça desta história é aquele que não se pode nem tocar no assunto. Talvez por ter dito muitos dos segredos e, por isto, arrepende-se. Mas, os poucos que dele falam e dão risadas, ficam a relembrar de fulano e cicrano e as mais variadas formas com que cada um encontrou pra viver o fim do mundo.

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