São assim Os Anjos



Ela estava um caquinho de dar dó. Das últimas semanas, bagagens lhe pesavam os ombros: do dinheiro difícil às presentes grosserias do filho mais velho contrapostas à saudade da doçura da caçula distante. Ainda por cima tinha a febre queimando-a de dentro pra fora. Não é doença, é cansaço de mulher sozinha, pensava. Os cabelos embranqueceram de uma hora pra outra e seu olhar envelhecido e sem brilho tirava-lhe o restante das forças. Tamanha solidão a fez chorar em frente ao espelho.

“-Por quê a gente envelhece?” – lamentou-se.

Mas não se deixaria abater. Primeiro, ainda tinha uma ponta de esperança das coisas melhorarem, depois porque a vida continuava nos filhos crescendo. Por ai, resolveu arrumar a casa pra espantar os maus espíritos, pra se fazer mexer, girar energia, mudar o que estava estagnando, sei lá mais o quê. De certo é que tinha de tirar a urucubaca do corpo.

Se a vida te dá um limão, faz uma limonada, lembrou. E esta manhã merecia uma caipirinha! Ia se dar esta força!


Assim começou a arrumação e caipirinha: espana, varre, joga água, troca móveis de lugar, som nas caixas. Terminou a dose. Encontrou companhia. Lágrimas ajudaram-na lavar o chão. Nas letras das músicas vislumbrou formas de expurgar as dores que ruminavam seu peito.

Depois buscou cerveja. Duas garrafas esvaziadas com calma e vassoura virou microfone e o rodo seu par na contra dança. Almofadas formaram uma platéia ativa. Janelas abertas e o vento a aplaudiu, lambendo seu rosto de carinho. No final da manhã quando a casa já estava um brinco, pôde sentir o contraste da assombração que ela queria limpar. Daí quê, pra descansar a alma, foi à padaria comprar mais cerveja.

E foi! Desfilou de chinelo, bermuda, suor e rabo de cavalo, até a esquina. Azar de quem achasse de mais ou de menos. Problema dos bobos da oficina da frente e suas piadas indecentes.

De posse das garrafas, já ensaiava a volta quando viu o filho abrutalhado entrar na casa recém arrumada.
E mais essa agora, pensou sentida, não ia mais poder ligar o som. Diante disto resolver tomar ali mesmo, quantas cervejas fossem pra lhe trazer o sono... E é ai que começa a história que vou contar.

Foi na metade da primeira cerveja que deu de cara com ele. O susto fez com que suas mãos se tocassem de um jeito diferente, as lembranças de um tempo feliz permitissem um abraço sem pudor, sem a preocupação com gente ao lado. E quando se sentaram à mesinha da padaria ficaram por um bom tempo calados. Estavam emocionados na presença um do outro. Então, só se olharam, só se tocaram. Falar o quê?

Ele mais grisalho, engordado um pouco, mantinha o mesmo sorriso escondido na cara fechada. Ela lembrou que ele era um homem bom, cheio de gestos ternos e cautelosos e que se não estavam juntos foi por imposição dela. Quem mandou um ser preto o outro branco, um magro outro gordo, um do mato outro da cidade, um graduado e o outro nem terminado a quarta série? Como leva-lo para um mundo de etiquetas, doutores, regras e tecnologias? Como levar ela para um mundo sem computador, sem os filhos que agora começavam a pegar rumo na vida?

Lembrou-se que a ciência destes fatos eram dos dois. Duas pessoas em mundos tão opostos que um dia viveram momentos intensos, felizes, mas insuficientes para prosseguirem. Na época que se conheceram resolveram seguir assim mesmo. Que fossem até a onde dessem conta. Até que as diferenças pesassem.

Ele, que se dizia forte, chorou no dia que ela pediu pra acabar. Estava preparado para largar tudo e levar ela pro mato mais ele. Azar das querelas. Mas ela não tinha conseguido desabrigar-se das diferenças. Assim, ele foi embora cabisbaixo, jurando nunca mais pisar os pés ali.

- Perdoa eu, nunca te quis mal - conseguiu falar.
- Não tem o quê... você é um homem bom, mas não vê que este mundo não é nosso?

Ela se sentiu acalentada com a presença dele e esqueceu o que vinha vivendo. Pra ajudar, a chuva de verão desceu, resguardando aquele momento e eles se amoitaram em um barzinho de quinta, rindo e jogando sinuca. Nesta hora, nesta tarde, o rompimento estava esquecido. Mais forte que isto tinha a saudade pra ser abatida.

- O que deu em você pra aparecer assim, de repente? - ela perguntou.
- Vim te trazer o dinheiro.
- Quê dinheiro?
- Lembra que você pagou a conta do restaurante, naquela tarde?
- Mas seu dinheiro tinha acabado!
- Eu não podia ficar te devendo.- acrescentou ele esticando a mão com o dinheiro entre os dedos.

O fim de semana ficou comprido. Ninguém soube, ninguém viu. Sábado à noite foram dançar. Domingo ela deixou o filho, ainda emburrado, em casa e foi pra beira do rio mais ele.

Acolhida nos seus braços ela achava que podia respirar aliviada das suas dores. Mas com a chegada da noite a febre voltou.
- Não posso deixar ocê voltar pra casa assim - insistiu ele
- Meu filho está lá, não ficarei sozinha.
- Mas ele não vai cuidar d´ocê, eu vou.

E arrumou um quarto em uma pensão qualquer. Lá se enrolou em um cobertor com ela, zelando sua respiração, respondendo ao delírio dela:
- Você fez nossa casinha branca, meu bem?
- Bem no pé da serra - sussurou pra ela.

Já era noite alta quando ela voltou a si. Ficaram conversando amenidades até o dia amanhecer pra só depois se separarem. Ela retornou pra o seu mundo e ele pro dele. Descobriram que outra forma de fazer amor era sendo o amor. Estavam em paz. Como os anjos.

6 comentários:

  1. Nossa! linda a cronica! bem triste, ate demais, mas lindissima! Adorei! é muito ruim qndo as diferenças impedem as coisas, nao é?!
    beijos
    ta de parabens

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  2. Eu posso até está divagando, mas acho que você construiu uma situação em que a personagem delirava por causa da caipirinha e da cerveja. Estou certo?

    Por isso fica no ar se ela dormiu ou não com aquele rapaz. Acho que você quis provocar uma sugestão ao leitor.

    Ótimo.

    Beijos

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  3. AMEI SEU BLOG!!!!
    ESTÁ EM MEUS FAVORITOS!
    ESTOU SEGUINDO!
    ;-)
    bjosss!

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  4. Olá,
    Obrigado pela visita.
    Parabéns pelo blog e pela crônica.
    Quando ví os anjos me lembrou de Clarice lispector em a hora da estrela, que dizia "Ela acreditava em anjos e porque acreditava, eles existiam..."
    bjus,
    Sorte.
    paz...

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  5. Eu, com certeza, acredito em anjos, e outras coisas mais...Não imagina como estou feliz de ter encontrado Sr. Blog,( é assim que chamo este, por quem estou apaixonada) !
    Gostei muito de estar aqui, vou voltar mais vezes. Parabéns!
    abraço, Vera.

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  6. Olá querida amiga Valéria,

    Parabéns por mais essa crônica maravilhosa.

    Fico a pensar se os dois são personagens de uma narrativa magnífica ou a história de um casal real. Como saber? Você diria?

    Crônica perfeita. Merece estar no mesmo patamar dos melhores escritores do país.

    Beijos em seu lindo coração.
    Carinhoso e fraterno abraço,
    Lilian

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