A Cara do Mico



Logo cedinho, o bicho de cabeça pra baixo, bota toda cara grande na janela da cozinha e, com aqueles olhos esbugalhados, entretidos em bisbilhotar, dá de cara comigo. O susto deste imprevisto fez com que ele ficasse bestificado, estático e o queixo lhe atingesse o peito. E só saiu do transe após ouvir a gargalhada que soltei da cara dele. Saiu correndo, trombando nas vigas, no ar, em si mesmo. E se eu ri tanto, foi por me lembrar que o danado do Mico tinha a mesma cara do tal sujeito de ontem.




O tal sujeito de ontem é violeiro e cantador dos bons! Interpretava as músicas de Zé Ramalho e começava até bem, mas, lá pela centésima pinga, ficava fazendo somente o gesto com a boca, sem soltar um som sequer. Daí que, nos bastidores, ganhou o apelido de ZeCaralho. Apesar da pouca idade, Zeca tem os cabelos totalmente brancos. Magrelo, estatura mediana, sem os dentes da frente, vivia por aqui, de bar em bar, filando de cigarro à tira-gosto, de cachaça à parati, até que um da rua, compadecido, lhe retirasse da calçada. A família já tinha cansado de falar, de pedir, de mostrar; então bebe, praga ruim!


O Zeca, nas horas de lucidez, era um excelente pintor. Daí que fazendo um bico daqui outro dali, foi parar na casa de outro sujeito grisalho, vendedor de mudas, apreciador dos mistérios dos cristais e das estrelas, que falava com seres espaciais e mantinha a filha única na França. Segundo soube, foi num destes encontros intergalácticos que ele foi informado dos números certos da sena e ganhou sozinho, com uma única aposta, a maior bolada da época. Depois desta prova, quem sou eu pra questionar as naves espaciais!


Tornaram-se amigos e apoiado por ele, Zeca foi pra São Paulo se tratar. Hospedou-se em uma das casas que este mantinha pra a filha, em suas vindas ao Brasil. E lá fez bonito: trabalhou pra agradecer a ajuda. O tempo passou e eis que surge, o agora José, com dentes perfeitos, desfilando de carro importado pelas ruas da cidade e como turista, câmera na mão, filmando o rio, passando pra lá e pra cá de bermuda comprida, camisa estampada e meia três-quartos. À tira colo e sob às benção dele, a bonita filha do Cristaleiro.


Num domingo ensolarado, o Cristaleiro morre: infarto fulminante. Os dois, Zeca e namorada que estavam lá pelas bandas da Europa, levaram quase três dias pra chegar aqui. A esta altura do campeonato é Zeca, digo, José, quem administra os bens da família. E até onde se consta nos laudos do cartório, das portas de rua e dos botequins, o cara não cometera um só deslize, não se deixou levar seguer, por uma proposta indecorosa! Agora tem porte e anda de cara limpa e peito inchado. Uma chance de ouro! A moça é bem criada, carinhosa e orgulhosamente desfila de mãos dadas com ele pelas ruas da cidade em fofoca, numa demonstração clara que o ama e o respeita. Às vezes era isto que ele precisava. Alguém que confiasse nele. Que apostasse nele. Que saiba dar valor! E tão felizes estavam que o casamento foi singelo também. Nada de ostentação, nada de barulho. Tudo na calma e na paz.




Ontem era dia de fazer matéria e eu estou, há coisa de um mês, na função de cinegrafista junto com Anderson. Cubro o que, inesperadamente, não se adaptou e foi embora. Também precisamos de uma repórter. Por isto, ao fazer as cenas, observo com muita atenção as pessoas ao redor, pra ver se reconheço nelas, o que procuro. E foi num destes zoom que flagrei Zeca, detrás da porta do carro, dando mais uma golada na marvada. No olhar sorrateiro, o rosto gira para um lado e para o outro, vrupt, pinga pra dentro. Depois, limpa a boca com a manga da camisa, sopra o ar, ajeita a língua, faz massagem nos beiços, masca um cravo e volta pra roda cheia de amigos. A cara, seríssima! Acompanho, duas, três vezes o mesmo percurso dele, no carro.


Neste ínterim, minha adotiva Raimunda, com seus parafusos a menos, esta no meu encalço, porque um delegado de codinome Don-Juan-Júnior, inventou de dizer pra ela que estou grávida e são quatro crianças. Desde então, nossos encontros tem sido pedantes; ela e sua cabeça desmiolada não saem de perto de mim, chorando e seguidamente fazendo a mesma pergunta: você vai casar com ele? São quatro? Cinco? Hoje não me irrito mais. Deve ser porque tive um ataque descontrolado de cólera na vida, e este foi semana passada. Estou limpa de tudo. Será difícil alguém me tirar do sério, por um bom tempo. Ela desiste, se afasta resmungando e eu, que conheço a peça, somando dois mais dois, chamo Anderson e falo o que podemos esperar. Ele ri, maliciosamente, e nos posicionamos. E é agora é que você tem que se lembrar da cara do mico, lá no início da história.


Lá foi Raimunda, xingando e chorando. Não quer saber mais de mim, tou de mal, acredita na gravidez quádrupla. Quer me mostrar que tem outra amiga. Pernas tortas, mãos na cintura, foi direto e reto na roda de ZecaCaralho. Cutuca o ombro da moça recém casada: Cê tá esperando neném dele? e aponta pra cena bagaceira que finge mexer no carro.


A talagada nem tinha chegado na garganta, quando os olhos de toda roda o encontraram. O impacto, o ohhh, o silencio. Acho que nenhuma boca voltou pro lugar. A cara dele, a cara do mico. Tal qual o olhar. Tal qual o silêncio; a paralisia. Mas ele não corre, quando ela se aproxima. Abaixa os olhos, balbucia foi só uma. Mais tarde, neste mesmo dia, eu os vi; ele de violão em punho abrindo e fechando a boca sem som, talvez entoando uma musique de ZéMico, só pra ela.

11 comentários:

  1. Maria Marçal16:56

    Agora que te conheço pessoalmente tenho a exata noção de que és espirituosamente competente para criar um texto tão glacial... tão parecido com micos belos, espantados e nos trazendo grandes surpresas.

    Amei.
    beijos de sempre,
    Maria Marçal - Porto Alegre - RS

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  2. Nossa Valéria que história hein?!rsrs Exemplo de diversos fatores, tais como superação, amizade, confiança no ser humano,sorte (enviada por ETs ou não) enfim uma série de fatores que passaram na vida desse José. Aliás quantos Josés existem pelo mundo a fora que não tiveram essa sorte não é verdade?!
    Lembrando de uma poesia aqui ao ler o texto, creio que esse rapaz ao se ver flagrado pela esposa bebendo caberia bem o pensamento "E agora José?!"....rsrs

    Parabéns pelo texto excelente,beijos no coração
    Márcia Canêdo

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  3. Que historia amarrada e tragi-comica!
    Sobre o Zeca... eu me lembro de situações contrarias, quando o sujeito tinha tudo e com desilusões de todo tipo acaba sucumbindo e virando pó de mico. Havia um mendigo que estacionava diariamente o bumbum embaixo do prédio que morei anos atrás. Diziam que ele tinha tudo, se aborreceu com a familia que ficava em disputa por herança e se danou do mundo. Na rua, na pobreza, encontrou mais alegria para viver.

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  4. Amiga Valéria, parabéns por escrever um texto tão maravilhoso. Fico aqui, com os meus botões, imaginando o tal do Zé... kkkkk Quantos Zés existem por aí em busca de uma change como esta não é? Mas a change de ganhar na loteria é a mais difícil mesmo... kkkkk Excelente! Abraços. Roniel.

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  5. Cara... que bagaça!rs! Quando eu tocava e cantava por aí,até que saía alguma coisa;hoje,tomo umas e esqueço a letra, quando não me embolo todo nos acordes;
    essa "mardita" transforma tudo mermo;
    prá pior,claro.E, nem adianta se vestir ou polir bem,o lado exterior dos milhões
    de ZéCaralhos por aí;porque por dentro,
    eles serão sempre ZéMicos...

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  6. Olá minha querida e linda Valéria, minha doce e suave menina,

    Fico maravilhada cada vez que leio um texto que escreve.

    Quem saberá dizer o que vai à alma de uma poetisa ao descortinar a estória de um caipira, que teve a sorte de ganhar na loteria, casar-se com uma moça fina e que teria tudo na vida para ser feliz, não fosse a “mardita” que lhe rouba os sentidos e o faz mergulhar num poço de mentira? Assim é a vida, o amor, apesar de sentimento nobre, não supera o vício da bebida.

    As palavras brotam de um coração travesso que quer nos encantar com a magia do texto, ou de um coração enfraquecido pela dor de um sofrimento, alheio talvez, ou um amor sorrateiro e oportunista, ou a dor da saudade de pessoa querida que já partiu desta vida, ou de um coração apaixonado que esbraveja no tum tum a descompassar as batidas?

    Qual será a fonte de inspiração dessa formosa poetisa?

    Esperarei você me contar.... querida.
    Fique com a paz e o amor de Deus.
    Carinhoso e fraterno abraço,
    Vovó Lili

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  7. joana06:43

    Valeria
    É uma historia comica,deu para diversão...kkkk....á medida que ia lendo ,pensava.como acabará isto??!
    Ha muitos Zés por ai ,precisando de uma ajudinha...mas nem todos se chamam Zecaralho...kkkk...
    O nome deve dar sorte...kkk...
    Gostei muito de sua historia:me animou um bocadinho!!!
    beijnhos
    joana

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  8. Olá, Valéria!
    E ainda diz que os outros é que são criativos, e você?
    Bjs e brigado pela atenção!
    Rike!

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  9. Saudações!
    Amiga VALERIA, com sinceridade, você é absolutamente, incrível... Uma crônica impecável, construída com um entusiasmo envolvente que nos permite se candidatar a ganhar dias de glórias!
    Parabéns por mais um Post mágico!
    Abraços,
    LISON.

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  10. Zeca não é passível de pena, pois é o típico 'traidor de confiança'. Talvez a maior confiança que esteja traindo seja a própria. Fraquezas humanas!!
    Ah, não entendi o lance da gravidez! :D Beijus,

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  11. Anônimo20:43

    Muito bom! kkkkk

    http://www.yesachei.com/

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