Operação O.Pen


Primeiro por causa do calor, depois pela ausência dos amigos, o dia mudo estava um tédio. Coisa mais sem graça, aquele domingo. A turma, há anos tinha se dissipado, e a saudade, atrevida, toma forma no peito. Sentimento besta que não pede licença pra alojar no coração da gente. Por isto ela estava lá, cravada nas lembranças de Chico. Eu quis saber, que saudade era aquela, e a cabeça dele começou a vagar, trazendo prá boca este e aquele momento, que o tempo levou. Delas, solta a gargalhada, os dedos rabiscam sobre a mesa, desenha o trajeto que viveu.


Lembra de quando eram todos meninos: ele, Xin, ZéCaralho, Miau, Cassete, Neizim, Dimilson, ninguém tinha mais que 15 anos. Recorda ainda, que Xin, recém experimentado uns dias nos arranha-céus da cidade grande, tinha acabado de chegar. Chegou metido, cheio de onda, falando sobre as modernidades da vida em São Paulo.

Maior barato lá, é o baseado! Você fica leve, doidão, disse o rapazinho cheio de gíria e chiclete. E estufando o peito ainda esclareceu que não vivia mais sem a coisa, porque, segundo ele, tava viciado.

O restante dos meninos, pra não passarem batido, nem de atrasado, responderam que ali,  na roça, já tinha aquilo. De muito tempo! Besta era ele, não saber disso. Depois, pra provar a veracidade da informação, sacaram do bolso um fumo picadinho, que rapidamente foi enrolado, para o recém chegado matar sua fissura. E entre uma tragada e outra, tosse daqui, tosse dali, o novo viciado disse que o fumo era até bom, mas o de São Paulo, bem melhor! Porém, aquele quebrava o galho, já tou doidão!

E a turma gostava de fazer comida. E Xim dizendo que o treco dava uma fome danada, sugeriu fazer uma galinhada. Mas galinha que presta, tem que ser roubada. Daí, os sete resolveram ir à caça e mais uma vez, foi montada a Operação O.PEN, codinome da Operação Penosa, o ato de furtar a galinha dos outros. 

Pra quem não sabe, galinha gosta de dormir empoleirada e assim que o sol abaixa. Pra entrar no galinheiro e a danada não gritar, você tem que pisar de mansinho e ir lá, debaixo do pé dela e fazer cosquinha. Isto mesmo. Um carinho, debaixo do pé da galinha, feito com a unha, na ponta do dedo e ela fica toda desmilinguida e não dá alarme. Daí, é só segurar pelo bico e correr com ela debaixo do braço.


Por ali perto tinha galinha boa.  E estas, gordas e bem tratadas, estavam lá, no aconchego do galinheiro de Zé do Fole. Caminhos combinados, você vai pra ali, você pra cá, vou dali, vai daqui, ajustado o assobio em caso de perigo e cada no seu posto, foi aberta a  Operação O.Pen. Mas, o que a turma não contava era que, naquele início de noite, Zé do Fole estava zanzando pelo quintal. Isto porque já andava chateado com o sumiço das distintas, e disposto a pegar o ladrão, fazia ronda no início e no fim da noite. Fosse bicho, fosse gente!

Tempo de seca, vegetação cortando, espinho pra todo lado. A honra da cosquinha ficou por conta de Xim, pra poder viver o efeito doideira de forma intensa. Mas quando ele já estava bem de frente da galinha de dedo esticado e tudo,  um tiro de chumbinho, grudado no grito, saltou na escuridão: “vou te matar fi-das-unha!”

Perna, pra que te quero! Nunca se viu gente passar debaixo de arame farpado com tanta agilidade. Xim coitado, saiu derrubando galinha, emaranhou no meio dos arbustos, por isto chegou bem depois, com os braços e as pernas arranhadas, cortados pela vegetação. E a Operação O.PEN só não foi um fracasso total, porque não foram apanhados. Faltou um tiquin assim, oh. Então, era hora de dar de ombros e jantar em casa. Mas a história não termina aqui.

Acontece que, naquela noite, tinha reza na casa do Zé do Fole. Todas as famílias foram convocadas. E não tinha jeito de não ir. Lá, os meliantes se encontraram e disfarçados, de banho tomado e cara limpa, escutaram o homem esbravejar a estória para as visitas indignadas. O difícil foi segurar o riso, porque pela escuridão, Zé do Fole só tinha certeza que era gente. E os suspeitos não eram eles. Mas, o pior mesmo continuou sobrando pra Xim. Pra não ser implicado e ter que dar explicações sobre as arranhaduras na pele, suando feito tampa de panela, apareceu de camisa e calça comprida, se dizendo muito gripado.

- Se não fosse o baseado, este velho me pegava - desabafou  limpando o suor do rosto.

E Chico, dando uma gargalhada maior que a aventura vivida, tirou do bolso o saco com o fumo e mostrou ao amigo.

- Isto não é maconha seu besta. É fumo Sabiá, fumo de rolo que tirei do meu pai.  Quem sabe, lá pra São Paulo, cê não ta fumando é cocô?

Depois de relembrar este fato, seu olhar se afundou no azul do céu e ele ficou rindo sozinho, talvez revendo os detalhes, que não soube contar. Ainda me falou que Xim se fez doutor dos bons e nem de perto, voltou pra tal maconha. Os outros, um morreu, outro casou... tão por ai.

Bons tempos, bons domingos, bons amigos, disse ao nos despedirmos. E finalizou: é disto, minha querida,  que é feito a saudade.

12 comentários:

  1. Que bela história, Valéria.

    Cheia daquele gosto de goiabada cascão que só existia na infância da gente. A de hoje, até tem gosto de goiabada cascão, igualzinha daquela... mas não tem sabor de amigo lembrada, de amor amado,de riso doado, de vida vivida.

    Parabéns Amiga!

    Beijos

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  2. kkkkkkkkk..nossa Valéria rí muito aqui com esta história viu. Me fez lembrar de meu irmão com os amigos dele quando tinham também a idade de 15 anos, só que a eles eram pior ainda ao meu ver..rs porque colocavam armadilha pra pegar gato e fazer churrasquinho..kkkkkk Lembro de minha mãe xingando muito eles mesmo ela não sendo lá muito fã dos bichanos.

    Adorei! Beijos no coração
    Márcia Canêdo

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  3. Oi Val

    Que historia ein, coisa tipica de adolescentes que curtem a vida adoidado.Sempre é bom lembrar da infancia é cheios de recordações boas, de aventuras inesqueciveis, que só fica apenas uma saudade imensa.

    Bjs no coração

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  4. Valéria que linda história... me lembrou os "causos" da minha vó!
    Gostinho de fazenda.... e muita traquinagem, coisa que eu vivi intensamente!
    Beijo no coração

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  5. Valéria, viajei no tempo com seu belo texto e aportei na zona da mata mineira onde passei a infância alegre e saudável! E senti saudade das 'peladas' da mangueira, das guerras de mamona e de roubar frutas na chácara da D. Matilde...
    Um grande abraço!

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  6. Jamais passaria pela minha cabeça que o significado da operação O.Pen era exatamente esse, hahahaha... Muito divertido e criativo esse codinome, rsrsrs.
    A história em si é muito boa, esses bons tempos jamais são esquecidos, e se forem fictícios, talvez sejam desejos do que gostaria que fosse.

    Beijos pra ti e uma ótima quarta.

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  7. Beleza de história, Valéria!

    Eu participei de várias "operações" no meu tempo de menino, mas não conhecia essa de fazer "cosquinha" embaixo do pé da galinha. Genial!

    E o seu texto é fechado de forma magistral: a saudade é feita dessas lembranças!

    Estou seguindo o blog e "levando" o banner das suas histórias para o Dando Pitacos!

    Um abração...

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  8. Oi Kitmell !

    É a primeira vez que visito o seu blog. Adorei ! Você escreve muiiito!

    Agora são dois os blogs de jornalistas/escritoras que visitarei frequentemente; o outro é a da nossa amigas Luciana Vaz.


    Beijins.

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  9. Vim agradecer a gentileza de seu comentário em meu blog e já me diverti com esta estória.
    Voltarei mais vezes porque seu estilo de escrever é ótimo.
    abração
    Atena

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  10. Que Post Fantástico!
    Amiga VELÉRIA:
    É impressionante a riqueza de seus artigos. E este, minha amiga, é absolutamente fascinante. Esta de fazer “cosquinha”, jamais vou esquecer.
    Parabenizo-a ardorosamente por mais um magnífico Post!
    Abraços fraternos,
    LISON COSTA.

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  11. Nossa,que prosa boa,Valéria! Tomarei logo mais,pelas boas coisa s da vida,uma bela de umas 3 doses de um elixir que "dizem" ser, coisa pura, de alambique mineiro, de Minas mesmo... Ahh menino! Depois de saber que neste mundão tem mais besta que malandro,e que a oferta nunca vai se acabar,se troca e se maquia de tudo,rs!
    Eu hoje,brindarei à vc e à(s) sua(s) crônica(s),que nos servem tão bem,estejam elas in natura,tão abertas para a análise que for,seja "psíquico-literal-humano" ou simplesmente,pelo prazer de uma boa conversa... Banzai!

    E,tendo eu,sempre recebido ou pago em dia e justamente tudo o que me é devido, pergunto:
    E quanto aos nossos sentimentos,ó mãe Terra,ó destino rodopiante;terei eu vivido tudo? Quantos falsos cigarros ainda fumarei ou,de quantos mais pseudo-tribunais terei ainda que ouvir sermões?

    Casuística conta que seja a vida,foram vários noves desperdiçados em infantis arroubos (só agora percebidos) vãos de adolescência, Então...mais um desses extra-hercúleos trampos cerebrais do tipo tô me sentindo muito "Sem Ti,ó Mental" e, caindo eu de novo,onde estaria minha alma casuística?

    Inté +,T adoro.

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  12. A historia é linda e o espaço maravilhoso de se visitar.
    Um grande abraço

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