O Canto do Grilo




É madrugada e o grilo botou a boca no mundo. Eu ando triste demais pra me importar com o cri-cri ininterrupto. Sei que o desgosto vem da pneumonia que tive. No meio da febre a gente fica buscando o sentido da vida. E tudo fica sem sentido.


Caminho pela casa ampliada e até já vi pelo Google a grande área recém construída. O telhado terá uma parte coberta por telhas de vidro e nas horas de folga, poderei ver as estrelas do céu ampliadas pela transparência. Hoje o céu estrelado está por toda a parte. Assim como o silencio entrecortado pelo grilo cantante.

Ainda me impressiona como determinadas lembranças me amarfanham. Sim, eu sei, saudade machuca mais. Fica o vazio. E quando a morte leva a culpa pelo vago, a gente não sara e a dor acomoda dentro do corpo. Ela já faz parte de mim. Choro de saudade dos meus pais.

Mas o chamado intermitente do telefone durante o dia, tinha me perturbado mais que o grilo falante da madrugada. A moça que fora presa um dia antes do natal pedia que eu fizesse uma carta dizendo que ela era boa pessoa. Foi vacilo, necessidade de dinheiro. Servira o ano todo de aviãozinho pra gente grande da realeza. Agora precisava destas pessoas e obviamente não encontrou ninguém. Fiz a tal carta, entreguei pessoalmente. Talvez o grilo estivesse exortando a voz dos dorminhocos dizendo é sua culpa, é sua culpa, sua máxima culpa. Mas eles roncam sua omissão.

E o grilo afugenta meu pensamento. Ao meu lado, dentro da caixa do sedex nunca enviado, esta a camisa azul com estampa plastificada. O cara que a deixou aqui saiu transvertido de falas e sorrisos e simulações de amor. Trato feito, deixa eu pra cá, vai ele pra lá, tudo acertado, a vida pedia assim. Mas não era nada disto. Com o andar da carruagem, a realidade tomou forma, no dois mais dois, custoso de acreditar que dava quatro. Jamais vou entender suas palavras querendo me ofender mais do que já tinha. Diante do fato, fui tomada por uma ira maior do que eu. E esta ira, literalmente, quase me matou. O rasgão no peito foi  porque ele não permitiu que eu guardasse as boas lembranças do que fomos. Assim pego a caixa como se olha um rascunho sem retoques.  

E foi em uma madrugada que o outro fugiu. Um dia antes, conversou comigo, disse que andava tão triste ao ponto de ter medo de “dar um tiro na cabeça”. A mulher se esforçava diante da depressão do companheiro. Ainda teria dito que, se ele acreditava em macumba ou mal olhado, estaria sempre ao lado dele, seja no psiquiatra ou no benzedor. Queria o parceiro de bem com vida. Como antes. E ele falava da sua admiração por ela. E a beijava colocando flores nos seus cabelos... Mas fugiu de mala e cuia, naquela mesma noite, enquanto ela dormia depois de um dia inteiro preparando o almoço de natal que não aconteceu. Vendera o que tinha e deu o que não era dele. Na estrada capotou o carro, mas chegou lá assumindo uma família não formada por ele. Eu vi os olhos dela enterrados em lágrimas e desgosto. Porque ele não foi sincero?, foi só o que falou.

A corda rangeu mais alto que o grilo. O corpo do menino ficou balançando ao vento a madrugada toda e fui eu a primeira pessoa a encontrá-lo. Lembro-me do nervoso que senti, da ânsia com que me perguntei qual era o tamanho da dor que ele queria enforcar. “Ele não se aceitava gay” disse o policial, até levou uma surra do pai por isto.

Lá no serviço recebo os relatórios e contabilizo os fatos. Quanta camuflagem!  Eu vejo tudo e não posso agir porque a chefia que me governa não permite. Eu finjo ter calma, mas o pedido de socorro me apressa. Não consigo raciocinar com o grilo gritando deste jeito.

Paro tudo até dar de cara com o danado do grilo  cri-cri-cri. Ele se silencia acuado diante do cala-boca que tenho nas mãos. Ainda insiste e remete mais um cri,  depois tenho a impressão que fecha os olhos esperando pelo final. Penso que a pior coisa que se pode sentir é abandono, preciso acreditar que em algum ponto, o salve-se quem puder não é geral.

E é por estas e outras que me retiro. Deixo o bicho cantar: canta Grilo, canta!

15 comentários:

  1. Muitas vezes amiga, estamos tão introspéctos que o cantarolar do grilo nos ajuda a refazer nosso eu. Vazio com as temperanças da vida. Sabe amiga eu gosto de ouvi-los.
    Abraços forte

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  2. Valéria,

    Estava com saudade dos seus contos, e adorei poder ler essas linhas que escreveu.

    Minha amiga, o sentido da vida está dentro de cada um de nós, e basta que nós procuremos um pouquinho por esse sentido para que achemos o seu real significado, e isso você sabe fazer e descrever muito bem...

    Adorei!

    Bjs.

    Rô.

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  3. Gostei, Valéria.
    Parabéns,
    Jorge Purgly

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  4. Saudações!
    Amiga Valéria:
    O Conto é todo coroado de uma profunda simbologia dos entraves e sonhos da dona vida. Dizem que é no bater das assas que o grilo macho produz os sons. Em analogia ao seu fascinante conto, eu acho que você fez uma ligação perfeita com o personagem em tela.
    Parabéns pela inspiração e magnífica narrativa.
    Um Post que merece ser lido e relido.
    Parabéns por mais um magnífico Post!
    Abraços fraternos,
    Lison Costa.

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  5. Querida Valéria
    Os grilos que cantam dentro de nós.
    Talvez o que nos desperta para as nossas inquietações, ou aquilo que nos remete as lembranças dos nossos sonhos?
    Estes cri-cri na noite invadindo a alma dos poetas, desvendando suas belas histórias guardadas.
    A saudades de um tempo e a força para recriar a vida, mesmo que para isso seja preciso reinventá-la.
    Querida amiga número mil desculpa, viajei nesta maravilhoso conto, e me estendi demais.
    Porque me transportei até o telhado de vidro e não me cansava de olhar estas estrelas e ouvir o grilo cantar.
    Meu pensamento ficou com este silencio entrecortado pelo grilo cantante.
    Lindíssimo!
    Beijos mil

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  6. Li linha a linha, palavra por palavra,cada cri, cri, cri. Muito bom!

    Paz!

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  7. Valéria, maravilhoso o seu conto, repleto de simbologias; adorei!
    O grilo é algo que incomoda; chega a ser irritante. Mas não há como descartar o fato de que esse canto cri cri tenha lá os seus méritos. Muitas vezes, serve para despertar a nossa consciência adormecida.
    Um grande abraço!

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  8. Oi Valéria,

    Teu blog está lindo! Nossa, que bom ver você postando de novo.

    Mas amiga, reconheço a dificuldade que tenho de comentar o que escreves. Seus contos batem direto no coração e só ele consegue perceber a beleza e a poesia contida em cada linha e desvendar a riqueza das mensagem ocultas nas entrelinhas.

    O encadeamento das palavras nos transporta para nossos próprios "grilos", nossas lembranças, nossos questionamentos sobre o significado das coisas, nossas lágrimas não derramadas, nossos momentos de perplexidade e saudade de algo ou alguém que já se foi...

    É o que o coração me revela, enquanto luto para colocar em palavras o que senti ao ler e tento fazer algum sentido.

    E tudo que consigo pensar é na magia.E essa magia é plena de significados. O céu estrelado, o canto do grilo, silenciosas testemunhas do bater descompassado dos nossos corações.

    E então percebemos que não estamos sozinhos. Essa magia nos irmana onde quer que estejamos.

    Fazemos parte de um todo. Partilhamos lágrimas e risos. Existe um propósito para tudo. Desânimos e tristezas nem pensar, Estamos onde temos que estar. Recebemos o dom da vida. E isso por si só é uma bênção e tanto! E tudo volta a fazer sentido...

    Lindo demais... Fiquei até meio esquisita aqui...rs. Mas adorei, como sempre!

    Bjs

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  9. Como sempre comentando com atrazo....rsrs essa sou eu né...rsrs

    Miga, seu texto reflete muitas reflexões feitas nessas madrugadas em que mesmo sabendo que a cama nos espera o sono não vem e é neste momento precisamente que todos os grilos resolvem aparecer e mexer com nossos pensamentos.

    Na vida aprendemos de um jeito ou de outro..... seja com alegria e felicidade de ter feito boas escolhas ou então ans lágrimas de tristeza por ter tentado e não dado certo. Mas fato é que o aprendizado é o mesmo e ouso dizer que nunca devemos ter receio de fazer escolhas erradas por medo de sofrer, ao contrário, porque senão também podemos perder a oportunidade de acertar e encontrar a felicidade.

    Esses grilos.. fazem parte de nossa existência e é uma das coisas que nos movem adiante.
    Deixa eles cantarem miga...... dance e cante com a canção deles.....

    Beijos no coroação...te adoro viu minha querida!!!

    Márcia Canêdo

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  10. Vivi Diniz07:20

    Resumindo, começa falando do abandono e termina buscando esperança. Vou listar o porque entendi assim:

    Os abandonos:
    (*) Do corpo sadio - pela doença,
    (*)a moça presa - pelos que ela serviu,
    (*)de você mesma - se vendo obrigada a abandonar os sonhos,
    (*)da mulher pelo homem que amava,
    (*) o menino pelos pais e depois por si mesmo, (o suicídio).
    (*)no seu serviço por não poder dizer a verdade.
    (*)Pela coragem - medo de ficar eternamente no cala boca (chinelada) do mundo e assim se abandonar por completo diante da desilusão.

    A esperança:
    (*)Canta Grilo, canta. Ou seja, não me deixe parar de questionar, não me abandone para que eu não fique muda! O canto do Grilo é a sua esperança!

    Oh nega, quando eu crescer quero ser quase igual a vc. A outra parte quero ser eu mesma, porque sei que você gostaria disto.

    Acho que neste eu matei todas as suas incógnitas. Você perdeu a aposta!

    Vivi

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  11. Oi Valéria!
    Ui, que grilo danado este!Mas ele faz o que veio pra fazer, parecido com a nossa consciência que quer tudo certinho, os pingos nos "is", tim-tim por tim-tim. Vai ver que ele só canta pra ela, mas a gente pensa que a razão dele...ah, a razão, quer sempre explicar...a razão dele cantar é pra incomodar quem se deixa incomodar - os de consciência, ou as consciências que queriam que tudo fosse um pouquinho melhor,para os outros,para todos, para si mesma.
    Às vezes, o bom é isto mesmo. Deixar ele cantar como a gente quando não pode calar...ou,quando o cansaço bate, entrar no canto dele, e se deixar levar, apagar as palavras da mente e entrar na mansidão da noite, deixando ele cantar por nós, até cansar, porque a gente tá tão cansada que já dormiu!
    Gostei, gostei muito mesmo!Você escreve de um jeito que admiro e, às vezes releio algumas frases,demoro tentando compreender , mas aí, relaxo e entro na história e faz um bem danado!
    Isto é arte, amiga. Cada um a interpreta com o seu próprio olhar...
    Beijos, Vera.

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  12. Que belo conto flor...muito lindo. Uma lição e tanto né?!
    Um super cherim, tô te levando pro meu blog louco...rsrs...

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  13. Valéria,acredite ou não, sofro com vc.


    "Let not the fierce sun dry one tear of pain before thyself
    hast wiped it from the sufferer's eye."


    Helena Blavatsky

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  14. Olá minha querida e doce Valéria,

    Como disse a Helena, sofro com você, por conhecer um pouco de sua história.
    Seus contos são intrigantes... e maravilhosos.
    Já disse outras vezes que me perco em suas palavras. Às vezes sei que fala de si, mesclado com fatos verdadeiros e fatos de sua imaginação lírica que deixa a todos boquiabertos com a leitura.
    Seu modo de escrever é impar e me derreto a cada conto.

    Beijos em seu coração, minha linda e fique com a paz do Senhor.
    te amo viu?

    Carinhoso e fraternal abraço,
    Vovó Lili

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  15. Valeria, voce é uma das poucas pessoas que escreve um conto com significados camuflados e tão perceptíveis.
    Carregadas e penetrantes idéias sensíveis quase palpáveis, devo dizer tais como fenômenos sensoriais.
    A simbiose do grilo e de humanos, os saltos, os cantos, irritantes ou errantes, nossa... fatos tão comuns hoje em dia.

    Bjs

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